6. MEDICINA E BEM-ESTAR 21.8.13

1. AS RAZES DO CNCER
2. MAIS CUIDADO PARA O CORAO FEMININO

1. AS RAZES DO CNCER
Em um trabalho histrico, cientistas identificam os processos que levam s mutaes genticas associadas aos 30 tipos mais comuns da doena. A informao dever servir de base para a criao de novos mtodos de preveno e de tratamento
Mnica Tarantino

COMEO - Um tumor  gerado a partir de transformaes no DNA das  clulas provocadas por agentes internos ou externos ao corpo 

 sabido que todos os tumores so causados por mutaes no material gentico presente nas clulas. Tambm  conhecido que a ao de agentes internos e externos pode deflagrar essas alteraes. Mas o que a medicina ainda no conseguiu compreender so os caminhos pelos quais ocorrem essas mudanas no DNA, fortes o suficiente para transformarem uma clula saudvel em um tecido tumoral. Na semana passada, um time internacional composto por 25 pesquisadores deu um passo fundamental para superar esse desafio. Aps analisar milhares de mutaes encontradas no cdigo gentico de 7.042 pessoas com as 30 formas mais comuns de cncer, a equipe conseguiu caracterizar vrios processos biolgicos que do origem s alteraes do DNA que, por sua vez, impulsionam o desenvolvimento da doena. Ou seja, chegaram  raiz da enfermidade. Achamos dentro do genoma dos tumores os vestgios arqueolgicos das mutaes que do incio ao desenvolvimento da maioria dos cnceres, afirmou o professor Mike Stratton, que participou do estudo e  diretor do Wellcome Trust Sanger Institute, da Inglaterra. O trabalho, de importncia histrica, foi divulgado pela renomada revista cientfica Nature.

Os cientistas descobriram que cada um desses processos deixa um determinado padro de assinatura  ou impresso gentica  no material gentico atingido. Ao todo, foram identificadas 21 dessas assinaturas. Os pesquisadores viram, por exemplo, que dois processos de mutao diferenciados se associam para produzir o cncer de ovrio, enquanto seis processos esto envolvidos no desenvolvimento dos tumores de fgado. Dos 30 tipos de cncer analisados, 25 apresentavam assinaturas decorrentes de mutaes relacionadas  idade. Outra, causada por defeitos na reparao de DNA, foi encontrada em tumores de mama, ovrio e pncreas.

 Outros padres, muito frequentes nos de maior incidncia, esto relacionados a uma famlia de enzimas que protege as clulas de infeces virais. As clulas respondem a esse gnero de infeces ativando essa classe de enzimas. Sua funo  a de infligir modificaes nos vrus de modo que no funcionem mais. Acreditamos que quando a clula ativa essas enzimas h efeitos colaterais, explicou Stratton. Seu prprio genoma se modifica tambm e ela fica muito mais propensa a se tornar uma clula cancergena, j que tem uma srie de mutaes.  uma espada de dois gumes.

O trabalho repercutiu em todo o mundo. As assinaturas genticas descobertas nesse fascinante e importante estudo identificam vrios e novos processos que iniciam o desenvolvimento do cncer. Entender isso ir nos levar a novas formas de preveno e de tratamento da enfermidade, disse o cientista Nic Jones, chefe do Instituto de Pesquisa do Cncer do Reino Unido. No Brasil, o oncologista Paulo Hoff, diretor clnico do Instituto de Cncer de So Paulo e diretor-geral do Centro de Oncologia do Hospital Srio-Libans, em So Paulo, partilha da mesma opinio.  um avano importante para compreender as diferenas e semelhanas entre os tumores. At agora, era possvel identificar alteraes em um ou outro gene relacionadas a um tipo de cncer. Essa pesquisa mostrou que  preciso uma combinao de alteraes, diz Hoff. Para o especialista, a comprovao de que existem padres que se repetem em vrios tipos de tumores influenciar o tratamento. Ele prev tambm a necessidade de se fazer estudos para avaliar quais so os padres de mutaes mais comuns na populao brasileira. Sabemos que os tumores de estmago dos japoneses possuem diferenas em relao aos mesmos cnceres em brasileiros, o que poder talvez ser explicado pelos padres de mutao que agora esto sendo mapeados, diz Hoff.


2. MAIS CUIDADO PARA O CORAO FEMININO
Para conter a escalada de mortes por problemas cardacos entre as mulheres, mdicos adotaro padres mais rigorosos de avaliao de risco
Mnica Tarantino

O corao da brasileira ser alvo de cuidados mais intensos. Neste semestre, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) adotar diretrizes mais rgidas para prevenir na populao feminina a aterosclerose (formao de placas que podem levar  obstruo da passagem do sangue nas artrias) e os problemas cardiovasculares a ela associados, como o infarto. Usaremos mtodos mais sensveis para diagnosticar com preciso os riscos de infarto, insuficincia cardaca e de acidentes vasculares cerebrais na mulher, afirma Raul Dias dos Santos, diretor da Unidade Clnica de Lpides do Instituto do Corao (InCor), de So Paulo, e um dos autores das novas regras que sero apresentadas aos mdicos no prximo congresso da SBC, em setembro.

REABILITAO - Jaine, 52 anos, optou por fazer exerccios monitorados por uma cardiologista em vez de cirurgia para recuperar o corao

Na origem dessa reformulao esto ndices preocupantes. Se na dcada de 1960 a cada dez mortes por infarto, nove eram homens, hoje essa proporo subiu. De cada dez bitos, quatro so de mulheres. Por uma associao de fatores que inclui desde a possibilidade de ter sintomas diferenciados do infarto (dores nas costas e nuseas, por exemplo) at a busca tardia de atendimento emergencial (por maior tolerncia  dor ou desconhecimento dos riscos e sintomas) e a probabilidade de ser mal avaliada, as chances de uma mulher morrer de infarto acabam sendo 50% maiores do que as de um homem da mesma idade. A mulher  subdiagnosticada. E uma das causas disso  a incapacidade de os mdicos de detectar os sinais da doena cardiovascular na populao feminina na emergncia, afirma Dias dos Santos. Foi o que aconteceu com Cinara Albert, 41 anos, de Porto Alegre. Ela tinha 35 anos quando sofreu um infarto. Senti uma dor na barriga, conta. Atendida em um hospital pblico, sua presso foi considerada normal e ela foi liberada. Preocupada, ligou para um amigo e pediu para ser levada ao Hospital Me de Deus. L constataram que eu havia infartado.

PREVENO - Lidia, 41 anos, sofre de arritmia e toma remdios. Como sua me tambm era cardaca, ela submete o filho Gabriel, 8 anos, a testes de colesterol

Diante dessa realidade, os novos paradigmas sero mais severos. Hoje, as mulheres que alcanam 10% de chance de ter um infarto ou acidente vascular cerebral nos prximos dez anos so enquadradas pela maioria dos mdicos na categoria de risco moderado. Esses riscos so calculados com a ajuda de uma escala que avalia a presena de fatores de risco como taxas de colesterol, presso arterial, peso, idade e histrico familiar. At agora, quem no supera 10% nesse escore costuma sair da consulta com indicaes para baixar o colesterol com dieta, fazer atividade fsica e parar de fumar se tiver o hbito.

NEGLIGNCIA - Cinara, 41 anos, infartou aos 35. Foi a dois hospitais at ser diagnosticada corretamente e receber tratamento

Pela nova cartilha, esse grupo passar a ser visto como de alto risco e dever ser tratado com medidas mais agressivas. Aquelas que convivem com dois ou mais fatores de risco precisaro reduzir rapidamente as taxas da frao ruim do colesterol, o LDL, e garantir que no fique alm do limite mximo de 100 mg/dL de sangue. Para quem j teve infarto, o limite do LDL  de 70 mg/dL de sangue. Antes, pertenciam  categoria de risco elevado as mulheres que somavam 20% de probabilidade de infartar ou de ter derrame nos prximos dez anos. Com as alteraes, a proporo de mulheres brasileiras em situao de alto risco para doenas cardiovasculares passa de 10% para 30%. As mulheres e os mdicos precisam entender que  um mito que elas no infartam. Necessitam incorporar a ideia de que devem fazer check-up cardiolgico assim como vo ao ginecologista, afirma o mdico Roberto Kalil Filho, diretor do Instituto do Corao de So Paulo. 

A mudana a ser implantada  baseada nas recomendaes adotadas em 2011 pela Associao Americana do Corao. Elas determinam, por exemplo, que a avaliao do risco de diabetes integre o pacote de testes. Fora de controle, a doena aumenta a fragilidade dos vasos sanguneos e o potencial inflamatrio, acelerando a progresso dos problemas cardacos. Estamos melhorando as formas de conferir o risco ao considerar a diabetes e tambm um marcador de risco de alta sensibilidade, a protena C-reativa, cujo nvel  detectado por exames de sangue. Por esse teste, vimos que muitas mulheres antes identificadas como risco intermedirio deveriam ser classificadas no patamar superior, disse  ISTO a cardiologista Nieca Goldberg, da Associao Americana do Corao. A ao dessa protena aumenta a oxidao do colesterol e seu efeito ruim sobre os vasos.

Algumas mulheres j esto atentas aos cuidados com seu corao. Com os exerccios supervisionados por uma cardiologista, estou conseguindo fortalecer o corao e eliminar os sintomas de forte presso no peito que sentia, diz a engenheira Jaine Isensee, 52 anos, do Rio de Janeiro. Aps sentir sintomas no trabalho, ela iniciou uma maratona de exames que detectou uma artria totalmente entupida. Teve indicao de cirurgia ou reabilitao e optou pela segunda. Bem indicado e monitorado, o exerccio aumenta a circulao colateral do corao e melhora a irrigao, atesta a cardiologista do esporte Isa Bragana, da Clnica Cardiomex, do Rio de Janeiro. A arquiteta Lidia Mie, 40 anos, de So Paulo, tambm no se descuida da preveno. Minha me tinha arritmia. Tomo remdios. E meu filho Gabriel, 8 anos, j se previne, afirma.  

